No mundo dos crescidos

No mundo de crescidos, em que eu aprendi, aprendi que nada é tão dado adquirido assim, que, infelizmente há muitas coisas que vamos deixando pelo caminho, sejam porque nos magoam, sejam porque nos fazem mal, sejam porque não nos acrescentam. E ficarem pelo caminho, é apenas e só um trilho muito libertador, é preciso aprender a fazê-lo, não é intuitivo, não é fácil, não é óbvio. Como (quase) tudo o que faz bem, mas que precisa de interiorização, custa ao princípio.

Aprendi, no mundo dos crescidos que, ser-se como se é, genuinamente, aceitarmo-nos a nós próprios, aprendermos a amarmo-nos como somos, a gostarmos de verdade de isso, não é um acto de egoísmo, nem é um acto de se achar melhor que os outros, é um passo enorme de maturidade e de auto-conhecimento. Para depois, nos podermos também dar de forma melhor e mais inteira, integra, aos outros.

É parar de criar uma capa daquilo que nós somos, e passar a ser, só eu, com toda a fragilidade que isso carrega, com todas as portas que isso nos abre ao que nos expõe e pode deixar magoar, porque somos todos seres (muito) imperfeitos e cheios de defeitos, não é ligeiramente verdade?

Mas afinal, diz que amar alguém, é também aceitar o pacote completo, não só partes dele, ou de alguma forma, pela nossa pequenez força-lo a ser de outra forma, porque é mais conveniente e confortável.

Somos naturalmente tão ego-centrados.

Sei que fui amada, mas também sei também que fui talvez “encaixotada” por ser  tal e qual assim, como sou, é chato tantas vezes ser Carmo, causa desconforto, por isso é melhor mesmo ser diferente  – Colocar a culpa em mim e seguir caminho para facilitar a vida dos outros, evitar chatices… ai as chatices, dão tanto trabalho.

Descobri pelos 30 anos de vida, pelo que decidi lutar e fazer por mim, depois de ser Mãe, que afinal, até sou uma pessoa bonita com talentos, não só com defeitos…. que descoberta difícil, e que ainda hoje me custa a aceitar.

E descobri também que há muitas pessoas que passam pelo mesmo.

Sejam pelos padrões des-estruturados que existem, seja pelos feitios mais dóceis, seja pelo não gosto pelo confronto, seja pelos maus tratos, seja pela recriminação, pela não aceitação, pela….

Pela falta de amor – Esse ingrediente que muda vidas. Que também as gera. Que fortifica e destrói. Que é tão poderoso que ninguém ensina a usar.

Aí amor.

Esse amor que ridicularizam, que subestimam, que é às vezes fuleiro, onde há vergonha, que é para os fracos.

Mas, se de facto, o amor não fosse tabu?

Aprendi, no mundo dos crescidos, que vale muito mais a pena ser-se quem se é verdadeiramente, mesmo com todos os riscos que isso leva atrás. Vale e valerá sempre mais a pena ser-se bom que mau. Ser-se dado que fechado. E se isso pregar com desculpem, “escarretas” na cara, paciência, mas não vamos nós também cuspir apenas para nos defendermos e mostrarmos que somos rijos. Há defesas mais altas.

E quem usa as armas do amor, esses sim por vezes levam com algumas etiquetas na testa. Esses sim são chamados de coisas, são sempre as pessoas com isto e aquilo a apontar. Sei na pele o que isto é.

Jesus também sofreu de bullying.

Aprendi que, quando acreditamos nos nossos sonhos, devemos seguir em frente e cumpri-los, ainda que pareçam distantes, vagos, pequenos, inalcançáveis, difíceis, altos de mais para nós.

Devemos aprender a festejar as vitórias.

Devemos sorrir e agradecer.

Sou pelo reforço positivo, pelo elogio, pela salva de palmas.

E se correr mal, sou pelo olhar nos olhos que explica, pela festinha que compreende aquele trambolhão, que está ali ao lado, mas que diz tudo o que for necessário, com calma, mesmo que possa doer para crescer e ouvir.

Sou pelo amor.

No mundo dos crescidos, aprendi que, existe amor.. carinho, afecto – e que todos nós precisamos tanto dele.

No mundo dos crescidos, aprendi que isso se dá e se recebe, gratuitamente, que é puro e verdadeiro.

Está nos gestos, nas palavras, em acções, em sacrifícios, em planos, em ideais, em pôr as mãos na massa, não deixar ao acaso que chegue e se encarregue de mostrar que amamos, que estamos aqui – esse é um erro grande demais.

No mundos dos crescidos, aprendi que existem clãs unidos, famílias unidas, que não vivem só de aparências.

Umas mais frágeis do que outras, que batalham de mãos dadas, que choram as lágrimas de uns e as vitórias de outros, que se perdoam, e quem em primeiro lugar estão lá, uns com os outros, uns para os outros.

Mundo de crescidos.

Neste mundo, percebi que há pouco a perder.

Neste mundo aprendi também a aceitar que o sofrimento está lá, ele não é ataque, é apenas uma circunstância que se trabalha e que se tem de receber em casa e braços abertos, para que faça o que tem a fazer e se vá embora em paz e demore a regressar. Mas que nesse sofrimento, há lá alegria, todos os dias – Uma descoberta mágica e transformadora.

Neste mundo crescido, entristece-me a desunião que vejo e sinto, os ódios, as “invejites”, as maldades, a maledicência.

Neste mundo aprendi que vou seguir caminho e que farei sempre tudo com a verdade e a minha consciência e do meu coração, que tem sido sempre um bom amigo e muito sábio.

Neste mundo, no meu mundo, serei sempre eu – Com tudo o que isso trás e leva.

Mu

No Comments

Post A Comment